Pesquisando...
16/04/2012

Estrada para a Perdição


– Esse tormento contínuo está ficando cansativo. Eu estava no meio de estudos importantes, magia delicada que requer semanas de preparo e rituais. – Kel’Thuzad foi forçado a esperar horas até que lhe estendessem a cortesia mínima de enfrentar seus acusadores, e estava enfurecido com o insulto. Já havia muito tempo que os porta-vozes do grupo, Drenden e Modera, eram seus críticos mais ferozes. Entretanto, eles não teriam iniciado essa última inquisição sem o apoio de Antônidas, que ainda não havia dado o ar de sua graça. O que o velho estaria tramando?
Drenden debochou:
– É a primeira vez que ouço seu tipo de magia ser chamado de “delicado”.
– Uma opinião ignorante de um homem ignorante – disse Kel’Thuzad com uma precisão fria.
E então uma voz distante falou com ele, uma voz de um amigo. A esta altura, os comentários dele haviam se tornado tão familiares que pareciam seus próprios pensamentos. "Eles têm medo e inveja de você. Afinal, graças a esse novo método de estudo, você continua a adquirir conhecimento e poder".
Houve um clarão repentino, e um carrancudo arquimago grisalho apareceu no salão. Ele trazia um pequeno baú de madeira debaixo do braço.

– Se eu mesmo não tivesse visto, não teria acreditado. É a última vez que você abusa da nossa paciência, Kel’Thuzad.
– Enfim, o venerável Antônidas nos faz a gentileza de aparecer. Eu estava começando a achar que você tinha ficado doente.
– A idade o assusta, não é? – Antônidas vociferou. – Você percebe que há apenas uma alternativa.

"Deixe que ele pense assim, se isso lhe serve de consolo."
Um pouco mais calmo, Antônidas disse:
– Quanto à minha saúde, não precisa ficar preocupado. Eu estava simplesmente ocupado em outro lugar.
– Procurando indícios de magia proibida em meus aposentos? Quanta ingenuidade!
– É verdade, seus aposentos não têm indício algum disso. Mas por outro lado, os depósitos que você possui nas terras do norte... – Antônidas olhou para ele com aversão.

Por que esse desgraçado tem que ser tão bisbilhoteiro?
– Você não tinha o direito...

Antônidas bateu com seu cajado no chão, silenciando-o, e virou-se para os outro magos:

– Ele transformou os prédios em laboratórios para realizar várias experiências ilícitas. Vejam vocês mesmos, colegas. Observem os frutos do trabalho dele. – Ele abriu o baú e o inclinou para que todos pudessem ver.
Os restos em decomposição de vários ratos. Dois ainda arranhando desajeitadamente as laterais do baú numa tentativa fútil de escapar. Vários magos levantaram de repente, e houve um reboliço de espanto. Até mesmo o elfo altaneiro que estava sentado nos fundos da sala pareceu surpreso, embora o príncipe Kael’thas fosse um homem cuja idade tornasse esse feito quase impossível.

Olhando os ratos presos, Kel’Thuzad viu que eles haviam tombado e tinham parado de se mexer. Mais um fracasso, pelo jeito. Não importava. Algum dia ele criaria uma espécie morta-viva estável. O esforço dele seria justificado. Era só uma questão de tempo.

"Algumas coisas ainda precisam ser aperfeiçoadas no feitiço que faz calar. Quer que eu mostre como fazer isso?" O tempo, e seu aliado desconhecido, cuja voz enigmática às vezes o ajudava a se aproximar de sua meta. "Mostre-me", ele pensou.

Uma jovem mulher chegou em outro clarão de luz. Enquanto ela se aproximava de Antônidas, o olhar do elfo altaneiro a seguia com uma intensidade inquieta. Mas Jaina Proudmore nem reparou; ela estava totalmente concentrada em suas obrigações. O belo príncipe não tinha a menor chance.

Ela lançou um olhar curioso de relance em direção a Kel’Thuzad com seus intensos olhos azuis. Ela pegou a caixa de Antônidas, que explicou:

– Minha aprendiz cuidará para que o baú e seu conteúdo sejam incinerados.

A mulher inclinou a cabeça e se teleportou da sala. De outro lado da sala, o elfo altaneiro olhou com desagrado para o lugar que ela desocupou. Em outras circunstâncias, Kel’Thuzad até acharia o drama silencioso divertido. Contudo, incontestado, Antônidas continuava com sua falação. Borbulhando de raiva em silêncio, Kel’Thuzad retomou o empenho para se libertar.

– Nós permitimos a situação atual por tempo demais. Nós o repreendemos ocasionalmente pelas suas atividades mais suspeitas. Tentamos guiá-lo. Agora descobrimos que ele tem praticado magia negra. O nome Kirin Tor está se tornando uma blasfêmia nos lábios dos aldeões daqui.

– É mentira! – Kel’Thuzad explodiu, voltando a atrair a simpatia de alguns dos magos, que aguardavam uma explicação dele. – Os camponeses se lembram da Segunda Guerra tão bem quanto nós. Diga o que quiser dos orcs, mas seus magos tinham grande poder. Poder contra o qual nós dispúnhamos de pouca defesa. Nós temos uma obrigação: precisamos aprender a ter e a combater essas magias nós mesmos.

– A fim de formar um exército de ratos mortos, a existência inatural deles medidas em horas? – perguntou Antônidas de maneira seca. – Sim, meu jovem, eu também encontrei os seus diários. Você manteve registros detalhados dessa iniciativa abominável. Você não pode realmente pretender usar essas criaturas ridículas contra os orcs. Supondo, é claro, que os orcs saiam um dia da letargia atual em que se encontram, escapem dos campos de concentração e, de alguma forma, voltem a ser uma ameaça.

– O fato de eu ser mais novo do que você dificilmente me torna um jovem – retrucou Kel’Thuzad. – Quanto aos ratos, eles são um indicador pelo qual meço meu progresso. É uma técnica experimental padrão.

Um suspiro.

– Sei que você passa a maior parte do tempo no norte hoje em dia. Suas longas ausências foram a primeira coisa que me chamaram a atenção. Mesmo assim, até você já deve ter ouvido que o novo imposto do rei fomentou uma agitação civil. Sua busca egoísta por poder pode causar uma revolta dos camponeses. Lordaeron mergulharia numa guerra civil.

Ele não tinha conhecimento do imposto. Antônidas deve estar exagerando. Além disso, magos de verdade se concentrariam em questões de maior relevância.

– Eu serei mais discreto – ele propôs, entredentes.

– Discrição alguma conseguiria ocultar tamanho segredo – disse Drenden.

Modera acrescentou:

– Você sabe que sempre vivemos uma situação instável para proteger o nosso povo sem nos tornarmos, nós mesmos, um perigo. Não ousamos sacrificar a nossa humanidade, nem em sua aparência e certamente nem em sua essência. Na melhor das hipóteses, seus métodos fariam com que fôssemos condenados como hereges.

Era demais.

– Há séculos que nos chamam de hereges. A igreja nunca aprovou os nossos métodos. Apesar dessas opiniões, cá estamos nós.

Ela concordou:

– Porque evitamos a magia negra, que leva à corrupção e à catástrofe.

– Porque nós somos necessários!

– Basta. – Antônidas parecia esgotado. Para Modera e Drenden, ele acrescentou: – Se apenas palavras pudessem influenciá-lo, elas já o teriam feito.

– Eu escutei suas palavras – exasperou-se Kel’Thuzad. – Deuses misericordiosos, eu as escutei até não poder mais! São vocês que não me escutam e não colocam de lado seus antiquados med...

– Você confunde nosso propósito aqui – interrompeu Antônidas. – Isto não é um debate. Neste exato momento, seus pertences estão sendo inteiramente revistados. Todos os itens maculados por magia negra serão confiscados e destruídos depois que os tivermos identificados satisfatoriamente.

Seu aliado sem nome o avisara de que isso poderia acontecer, mas Kel’Thuzad não acreditara. Estranho. Ele se sentia quase aliviado de que tivesse chegado a isso. A necessidade de sigilo havia limitado a extensão do seu trabalho, retardado seu progresso.

– Considerando as provas – Antônidas disse ponderadamente –, o rei Terenas concordou com nosso julgamento. Se não deixar de lado essa loucura, você será despojado de sua posição e suas propriedades, e será exilado de Dalaran, aliás, de toda Lordaeron.

Com o espírito inquieto, Kel’Thuzad curvou-se e retirou-se do salão. Certamente o Kirin Tor estava mantendo segredo sobre sua dita desgraça, temendo repercussões caso suas ações viessem a público. Pelo menos uma vez, a covardia deles lhe seria favorável. Sua riqueza nunca iria revestir os cofres do rei.

Um bando de lobos seguiu Kel’Thuzad por léguas, a uma distância fora do alcance de feitiços, antes de ficarem para trás. Olhando por cima dos ombros, ele os viu rosnar e abaixar as orelhas antes de saírem correndo. Felizmente, os ventos árticos também estavam se dissipando. À distância, ele conseguia vislumbrar o cume, um pináculo gélido, cuja visão lhe deu uma sensação de triunfo e agouro: o próprio pico da Coroa de Gelo. Poucos exploradores haviam se aventurado pela geleira, e um número ainda menor havia sobrevivido para contar. Mas ele, Kel’Thuzad, escalaria sozinho até o topo e olharia com desprezo para o resto do mundo.

Infelizmente quase não existia mapas do continente gelado de Nortúndria, e ele os considerava lamentavelmente inadequados, como os suprimentos que ele havia embalado orgulhosamente para esta jornada. Sem ter certeza do caminho à frente nem do seu destino final, ele não podia se teleportar. Sem se poupar, ele cambaleava para diante. Ele já havia perdido a noção de há quanto tempo estava andando. Apesar de seu manto forrado de pelame, ele tremia incontrolavelmente. Suas pernas pareciam pilares de pedra: desajeitadas e dormentes. Seu corpo começava a falhar. Se não encontrasse logo um abrigo, ele acabaria morrendo.

Por fim, um lampejo atraiu seu olhar: um obelisco de pedra esculpido com símbolos mágicos, com uma cidadela atrás. Enfim! Ele passou depressa pelo obelisco e atravessou uma ponte do que parecia ser pura energia. Os portões da cidadela se abriram quando se aproximou, mas ele parou abruptamente.

A entrada estava protegida por duas criaturas grotescas que pareciam aranhas gigantes da cintura para baixo. Seis pernas finas serviam de apoio ao peso das criaturas; os dois outros membros estavam presos como braços a um tronco vagamente humanoide. Entretanto, ainda mais fascinantes do que as próprias criaturas era o estado delas. Os corpos exibiam uma coleção de feridas abertas, sendo que a pior delas havia sido enfaixada de forma tosca. Os braços de um dos guardas estavam dobrados em ângulos improváveis. Linfa escoava da boca com presas do outro, mas o guarda nem se preocupava em limpar.

Apesar do fedor familiar da morte-viva, os guardas não demonstravam sinal de confusão, ao contrário dos ratos de Kel’Thuzad. As criaturas araneiformes devem ter conservado a maior parte da coordenação e força original. Caso contrário, elas seriam guardas ruins. O criador delas era, sem dúvida, um necromante habilidoso.

Para sua surpresa, elas abriram caminho para ele passar. Sem querer questionar sua sorte, ele entrou com prazer na cidadela, onde a temperatura estava bem mais quente. No corredor à frente, havia uma estátua quebrada de uma das criaturas metade aranha. O prédio havia sido construído recentemente, mas a estátua era bastante antiga. Pensando bem, ele havia visto estátuas parecidas em ruínas antigas pelas quais passara em direção ao norte. O frio estava diminuindo sua inteligência.

Seu palpite era de que o necromante havia conquistado um reino desses seres araneiformes, convertido-os à morte-viva com êxito e tomado os tesouros deles como espólio de guerra. Ele exultou. Ele certamente aprenderia grandes coisas aqui.

No final do corredor, uma criatura gigantesca arrastou-se até seu campo de visão: uma combinação grotesca de besouro e aranha. Ela aproximou-se dele com passo deliberado, e Kel’Thuzad observou que seu corpo imenso exibia uma quantidade ainda maior de ferimentos e bandagens. Assim como os guardas, a criatura era morta-viva, mas seu mero tamanho fez com que ele ficasse mais assustado do que impressionado. Ele duvidava que tivesse habilidade suficiente para dominar tal monstro, muito menos fazê-lo ressuscitar dos mortos.

A criatura o saudou com uma voz grave que reverberava em seu corpo ponderoso. Embora ela falasse a língua comum de forma perfeitamente compreensível, o som o arrepiou, pois suas palavras traíam zumbidos e estalidos estranhos:

– O mestre o estava aguardando, arquimago. Eu sou Anub’arak.

A criatura tinha tanto inteligência quanto habilidade motora para utilizar a fala, impressionante!

– Sim. Eu desejo ser aprendiz dele.

A enorme criatura simplesmente olhou para baixo na direção dele. Talvez ela estivesse imaginando se deveria ou não fazer um saboroso lanche.

Ele pigarreou nervosamente:

– Posso vê-lo?

– Quando chegar a hora. – Anub’arak ribombou. – Até agora, você devotou sua vida à busca do conhecimento. Uma meta admirável. Mas mesmo assim, as suas experiências como mago não podem ter lhe preparado para servir o mestre.

O que poderia ter inspirado tal fala? Será que o senescal considerava Kel’Thuzad um rival? Esse era um conceito errôneo que deveria ser afastado o quanto antes.

– Como ex-integrante do Kirin Tor, eu tenho mais magia sob meu comando do que você poderia imaginar. Estou mais do que preparado para quaisquer tarefas que o mestre tenha para mim.

– Veremos.

Anub’arak o conduziu por vários túneis que os levaram para bem dentro da terra. Finalmente, Kel’Thuzad e seu guia emergiram em um vasto zigurate cujo o nome, de acordo com Anub’arak, era Naxxramas. Pela sua arquitetura, a construção era outro produto das criaturas metade aranhas. De fato, as primeiras câmaras que Anub’arak lhe mostrou estavam povoadas pelas coisas mortas-vivas, que rapidamente deixaram de ser novidade. Aranhas de verdade também agitavam-se aqui e acolá entre as mortas-vivas, ocupadas em tecer teias e pôr ovos.

Kel’Thuzad ocultou sua repugnância, negando ao enorme senescal tal satisfação. Ao indicar uma das coisas araneiformes mortas-vivas, ele disse:

– Vocês têm certa semelhança. Todos vocês derivam da mesma raça?

– Da raça nerubiana, sim. E então o mestre apareceu. Conforme a influência dele se espalhou, nós lutamos contra ele, acreditando tolamente que tínhamos alguma chance. Muitos de nós fomos mortos e trazidos à morte-viva. Em vida, eu fui um rei. Hoje, sou um senhor da cripta.

– Em troca da imortalidade, você concordou em servi-lo – Kel’Thuzad refletiu em voz alta. Extraordinário.

– “Concordar” implica escolha.

O que significava que o necromante podia compelir obediência dos mortos-vivos. Talvez Kel’Thuzad fosse o primeiro ser vivo a vir aqui de livre e espontânea vontade. Vagamente inquieto, ele mudou de assunto:

– Este lugar está repleto do seu povo. Presumo que você mande aqui.

– Depois da minha morte, eu liderei meus irmãos na conquista deste zigurate para o nosso novo mestre. Eu supervisionei o processo de alteração disso aqui para servir ao projeto dele. Contudo, Naxxramas não está sob minha autoridade. Nem o meu povo é o único ocupante daqui. Esta é apenas uma ala das quatro existentes.

– Nesse caso, guie-me, senhor da cripta. Mostre-me o resto.

* * * * *



A segunda ala era tudo que Kel’Thuzad poderia esperar. Artefatos mágicos, equipamento de laboratório e outros petrechos que humilhariam seu antigo laboratório. Salas imensas que poderiam conter um verdadeiro exército de assistentes. Feras mortas-vivas que foram engenhosamente remendadas a partir de uma miscelânea de animais e reanimadas. Havia até mesmo alguns humanoides mortos-vivos compostos de membros de humanos variados. Os membros humanos não exibiam ferimentos: ao contrário dos nerubianos, os humanos não haviam lutado contra o destino. O necromante deve ter conseguido os cadáveres em um cemitério local. Fora prudente ao evitar chamar a atenção, pois o Kirin Tor teria tomado uma atitude imediatamente.

Infelizmente, a terceira ala se revelou menos interessante. Anub’arak mostrou a ele uma armaria e uma área para treinamento de combate. Depois, o senhor da cripta o conduziu por câmaras cheias de centenas, não, milhares de barris lacrados e caixotes de embarque. Por que Naxxramas precisaria de tantas provisões? Bem, a pirâmide estava bem estocada na eventualidade de ser sitiada.

Finalmente, ele e Anub’arak chegaram à última ala. Cogumelos gigantes brotavam num jardim e exalavam gases nocivos que deixaram Kel’Thuzad enjoado. O solo abaixo de cada cogumelo parecia insalubre, possivelmente doente. Ao se aproximar para inspecionar, ele pisou em alguma coisa que esguichou: uma criatura do tamanho de um punho que parecia uma larva.

Ele estremeceu e seguiu em frente apressadamente. A sala seguinte tinha vários caldeirões pequenos cheios de um líquido borbulhante esverdeado. Curioso, apesar do odor repulsivo da substância, Kel’Thuzad deu um passo à frente, mas uma garra enorme impediu sua passagem.

– O mestre deseja que você permaneça entre os vivos. A sua hora ainda não chegou.

Ele quase perdeu o fôlego:

– Isso teria me matado?

– Existem muitos que se recusam a servir o mestre em vida. O fluido dá um jeito nisso. – Vendo o olhar inexpressivo de Kel’Thuzad, o senhor da cripta disse: – Venha. Eu vou lhe mostrar.

Anub’arak o levou a uma cela onde havia dois prisioneiros: aldeões, pelas roupas simples. O homem segurava a mulher nos braços; ela estava terrivelmente pálida e empapada de suor. Os dois estavam vivos, embora a mulher estivesse claramente doente. Constrangido, Kel’Thuzad olhou para o senhor da cripta.

O olhar vidrado dela encontrou Kel’Thuzad e se iluminou:

– Piedade, meu senhor! Meu corpo está debilitado. Eu vi o que vai acontecer a seguir. Uma seta de chamas, eu lhe imploro! Permita que eu descanse em paz.

Ela temia se tornar escrava do necromante. De acordo com Anub’arak, ela não teria escolha. Kel’Thuzad desviou o olhar constrangido. Afinal, ela não viveria por muito mais tempo mesmo.

Ela se esforçou para sair dos braços do homem e se agarrou às barras da cela:

– Tenha piedade! Se não quiser me ajudar, pelo menos salve o meu marido! – E ela chorou desesperadamente.

– Calma, querida – o homem murmurou atrás dela. – Eu não vou abandonar você.

– Faça-a se calar! – Kel’Thuzad sussurrou furiosamente para Anub’arak.

– O barulho incomoda você? – Com um movimento rápido como um raio, Anub’arak estendeu uma garra pelas barras e perfurou o coração da mulher. Depois, o senhor da cripta livrou-se do cadáver, jogando-o no chão.

O marido dela urrou de agonia. Sentindo um alívio culpado, Kel’Thuzad começou a se virar, mas parou no instante em que o cadáver passou a se debater e se dobrar no chão de pedra. O aldeão ficou chocado e se calou.

A pele da mulher morta estava mudando de cor, tornando-se um cinza vagamente esverdeado. Gradualmente os espasmos pararam, e ela se levantou cambaleante. Ela virou a cabeça para um lado, depois tremeu ao ver o marido.

– Guardas, tirem esse homem daqui! – ela vociferou.

Os guardas não se mexeram. Com um gemido, ela passou os dedos pelos cabelos castanhos embaraçados, e Kel’Thuzad pôde ver bem o rosto dela. As veias estavam ficando escuras sob a pele, e o olhar dela parecia selvagem, demente.

O marido perguntou incerto:

– Meu amor? Você está bem?

Ela soltou uma risada amarga que virou um rosnado quando ele deu um passo hesitante na direção dela:

– Não se aproxime mais.

O homem ignorou o protesto e continuou, mas ela o empurrou com tal força, que ele voou, batendo nas barras da cela. Atordoado, ele escorregou até o chão.

– Fique aí. – A fala dela estava ficando mais gutural. – Te machuco. – Ela se abraçou, recuou até bater na parede oposta da cela. – Te machuco, te machuco – ela choramingou, e o jeito que ela dizia isso começou a parecer estranho.

Sem compreender, Kel’Thuzad observou enquanto ela ergueu lentamente a mão, que se mexia com espasmos, até o buraco no peito. Ela sibilou, fez uma careta e levou os dedos até a boca. Ela os lambeu e os chupou. Depois, em um movimento confuso, ela saltou sobre o marido, atacando-o com os dentes à mostra...

O homem berrou, e sangue jorrou no chão da cela. Kel’Thuzad se encolheu. Fechar os olhos não adiantava; ele continuava escutando os sons terríveis. O rasgar, o retalhar, o mastigar. Um choramingar baixo e triste, o qual ele temia que significasse que a morta-viva tinha alguma consciência das suas ações, mas não conseguia se controlar.

Enjoado e horrorizado, ele se teleportou para fora de Naxxramas, cambaleou um pouco para longe e vomitou. Ao encontrar um pouco de neve limpa, pegou punhados dela e esfregou-a violentamente na boca e no rosto. Ele tinha a sensação de que nunca voltaria a ficar limpo. No que foi que ele havia se metido?

Aos poucos, ele voltou a raciocinar. O necromante não era um mero acadêmico interessado em estudar um campo da magia amplamente condenado. Nem tencionava parar depois de fortificar seu lar contra ataques. Ele estava produzindo em massa um fluido que transformava as pessoas em zumbis. Naxxramas também tinha um estoque enorme de suprimentos, armas, armaduras, campos de treinamento...

Essas medidas não eram defensivas. Eram preparativos para a guerra.

Um vento repentino bateu emitindo um som sobrenatural, e um grupo de aparições frias manifestou-se em frente aos seus olhos. Ele já lera sobre elas há anos na Cidadela Violeta. A vaga descrição de formas translúcidas e nebulosas não mencionara nada sobre a maldade glacial nos olhos incandescentes.

Uma das aparições flutuou para perto dele e perguntou:

– Está em dúvida? Como vê, seu truque não o beneficiará. Você não pode escapar do mestre. De qualquer maneira, o que você pretenderia fazer? Para onde iria? Mais importante, quem acreditaria em você?

Lutar ou fugir: essas teriam sido as escolhas heroicas, sim, porém inúteis. Sua morte não serviria de nada. Ao concordar em se tornar aprendiz do necromante, Kel’Thuzad ganharia tempo para aumentar as próprias habilidades. Com treinamento suficiente, ele poderia ultrapassar o necromante ou pegá-lo de surpresa.

Ele fez que sim para a aparição:

– Muito bem. Leve-me a ele.

As aparições o teleportaram de volta à cidadela e o escoltaram para baixo por vários salões e cômodos, dos quais Kel’Thuzad sabia que não se lembraria depois. Finalmente, nas entranhas da terra, ele e as aparições entraram numa caverna imensa cujo frio úmido penetrou fundo em seus ossos. No centro da caverna, havia uma torre de pedra vertiginosamente alta. Coberta de neve, uma escadaria espiralava pelas laterais da torre.

Ele e as aparições começaram a subir. Seu coração batia de excitação e temor. Quando percebeu que seus passos estavam mais lentos, ele voltou a se apressar. Contudo, sua determinação não durou muito. Parecia que um peso o puxava. Evidentemente, a longa jornada por Nortúndria o cansara mais do que ele havia imaginado.

Lá em cima, no topo da torre, ele mal conseguia discernir um grande pedaço de cristal. Intocado pela neve, ele tinha um fraco brilho azulado. Não havia sinal do necromante.

Uma das aparições usou uma rajada de vento frígido para empurrá-lo. Seu ritmo havia voltado a diminuir. Irritado, ele apertou o manto contra si e se forçou a continuar a subir, embora estivesse resfolegando.

O tempo passou e uma saraivada de neve fê-lo recuperar a consciência. Ele havia parado no meio da escada para se debruçar sobre seu cajado. O ar estava viciado e sufocante; ele agora ofegava. – Me deem um segundo – ele balbuciou.

Uma aparição atrás dele disse:

– Nós não podemos descansar. Por que você poderia?

Com raiva, Kel’Thuzad voltou a subir e curvou os ombros diante da exaustão crescente. Ele levantou a cabeça com esforço e viu que o cristal brilhante estava mais próximo. A esta distância, ele parecia um trono denteado com formas escuras e nebulosas no interior. A coisa exalava uma aura palpável de ameaça.

As aparições esbarraram nele, assustando-o e fazendo-o dar um grito. Os ecos reverberaram pela caverna. Ele agarrou o manto de pelame com as mãos trêmulas e pegajosas de suor. Sua respiração arranhava a garganta, e ele teve um impulso repentino e terrível de virar e sair correndo.

– Onde está o mestre? – ele perguntou numa voz aguda e trêmula.

Não houve resposta, apenas uma tempestade de granizo que o açoitou cruelmente. Ele tropeçou, mas voltou a se firmar. A cada passo, o trono, que se agigantava acima dele, parecia mais opressivo, empurrando sua cabeça para baixo, curvando suas costas. Ele mal conseguia andar ereto. Pouco depois, ele caiu de quatro.

E então, o necromante falou diretamente com Kel’Thuzad numa voz que não era mais nem remotamente gentil. Que esta seja sua primeira lição. Eu não tenho amor algum por você nem por seu povo. Ao contrário, eu pretendo varrer a humanidade deste planeta, e não se engane: tenho poder para isso.

Implacáveis, as aparições não permitiram que ele parasse. Mais do que humilhado, ele abandonou o cajado e começou a rastejar. A malevolência do necromante o comprimiu, empurrando-o mais fundo na neve. Kel’Thuzad estava tremendo e gemendo... Ó deuses, como ele estivera errado, estúpida e tremendamente errado. Isso não era fadiga. Era terror absoluto.

Você não vai me pegar desprevenido, pois eu não durmo, e como já deve ter adivinhado, eu consigo ler seus pensamentos tão facilmente quanto você lê um livro. Nem espere me derrotar. Sua mente insignificante não é capaz de lidar com as energias que eu manipulo sem pestanejar.

Kel’Thuzad tinha rasgado as vestes a muito tempo e as perneiras eram inúteis contra a pedra gelada da escada escarpada. Seus pés e suas mãos deixavam rastros ensanguentados enquanto ele lutava para subir a última espiral. O trono, cercado de bruma, radiava um frio que gelava até os ossos. Um trono não de cristal, mas de gelo.

A imortalidade pode ser uma grande vantagem. Ela também pode ser uma agonia tão intensa que você jamais imaginou existir. Desafie-me, e eu o ensinarei o que aprendi sobre dor. Você implorará para morrer.

Ele chegou a poucos metros do trono, mas não conseguiu se aproximar mais, preso sob a aura esmagadora de ódio e poder inumanos daquilo. Uma força invisível desceu sobre ele e comprimiu sua face contra a pedra rígida:

– Por favor. – Ele se viu soluçando. – Por favor! – Mais palavras escaparam.

Finalmente, a pressão cedeu. As aparições esvoaçaram para longe, mas ele sabia que não deveria se levantar. Duvidava até se iria conseguir. Contudo, seus olhos procuraram seu algoz.

Um conjunto de armadura estava sentado dentro do trono, em vez de sobre ele. Kel’Thuzad talvez tenha pensado que a armadura era simplesmente preta, mas, ao piscar os olhos com força, ele viu que luz nenhuma era refletida da superfície dela. Aliás, quanto mais ele olhava, mais parecia que ela devorava toda luz, esperança e sanidade.

O elmo adornado cheio de pontas obviamente também servia como coroa. Ele exibia apenas uma única gema azul e, como o resto da armadura, parecia vazio. Em uma manopla, a figura apertava uma enorme espada cuja lâmina havia sido entalhada em runas. Aqui havia poder. Aqui havia desespero.

Como meu tenente, você vai obter conhecimento e magia para superar seus sonhos mais ambiciosos. Mas em troca, vivo ou morto, você vai me servir pelo resto de seus dias. Se me trair, eu o transformarei em um dos meus dementes, e ainda assim, você me servirá.

Servir esse ser espectral, esse Lich Rei, como Kel’Thuzad estava começando a considerá-lo, certamente traria grande poder a Kel’Thuzad... e o amaldiçoaria por toda a eternidade. Mas a compreensão disso veio tarde demais. Além disso, maldição pouco significava sem a perspectiva da morte verdadeira.

– Eu sou seu. Juro – disse ele numa voz rouca.

Em resposta, o Lich Rei enviou a ele uma visão de Naxxramas. Figuras pequenas com vestes negras formavam um círculo do lado de fora, na geleira. Seus braços, visivelmente envoltos em magia negra, se erguiam e se abaixavam no ritmo de um canto monótono que escapava à compreensão de Kel’Thuzad. Tremores sacudiram o chão debaixo dos seus pés, mas elas continuaram o feitiço.

Você seguirá adiante e será testemunha do meu poder. Você será meu embaixador para os vivos, e reunirá um grupo de pessoas que pensam como você para levar meus planos adiante. Através da ilusão, persuasão, doença e da força bruta, você instituirá meu domínio sobre Azeroth.

Para assombro de Kel’Thuzad, o gelo se mexeu e rachou, e o topo de um zigurate penetrou o chão gelado. Uma construção estava sendo erguida do solo. Enquanto as figuras com vestes redobravam os esforços, a vasta pirâmide continuou sua impossível emersão. Pedaços de gelo e terra voaram com uma força explosiva. Logo, toda a estrutura havia se desgarrado da terra. Lenta, mas seguramente, Naxxramas se ergueu no ar.

Esta será a sua nave.


por Evelyn Fredericksen

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